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5 de junho de 2018

OMS declarou que o vício em games deverá ser incluído como distúrbio mental – Por Ana Macarini

Tudo começa como uma atividade prazerosa, muitas vezes à qual se recorre para relaxar da rotina, ou escapar de situações da vida real com a qual não se consegue lidar. Cria-se uma vida em paralelo. O jogo é um desafio que se pode enfrentar sem testemunhas para presenciar o erro ou a derrota. Vencer uma etapa, “passar de fase”, passa a ser um objetivo de metas claras. O segredo do sucesso? A experiência. E a experiência pode requerer do indivíduo a sua exclusão das outras atividades da vida. Assim, o que era apenas um passatempo, sobe à categoria de estressor; e no lugar do inicial desejo de fugir da tensão, instala-se o vício; em casos mais graves, a dependência.
Os games on-line ou off-line constituem parte significativa dos dias e noites de nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos. É muito comum observar pais de crianças muito pequenas, oferecerem a estas – a título de entretenimento – sua primeira experiência com as telas. Claro que nenhum pai ou mãe, em sã consciência ou de caso pensado, planeja alienar seu filho do convívio social, ou subtrair-lhe o direito a vivências ricas do mundo real. No entanto, por estarem sobrecarregados ou ocupados demais em dar conta das inúmeras demandas da vida, acabam por recorrer a vídeos e jogos infantis, como recurso para distraí-los, acalmá-los ou estimulá-los. Tornou-se uma cena comum ver adultos encantados com o poder de determinados programas sobre o comportamento de bebês; a criança pode estar no meio de um choro convulsivo, basta ouvir uns acordes daquele “inocente programinha” para cessar o choro e voltar os olhinhos atentos para a tela. Tirando a curiosidade que a cena envolve, basta parar por um segundo e refletir brevemente, para concluir que isso não pode ser normal.
Essa semana, a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que o vício em games deverá ser incluído como distúrbio mental na próxima edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com Saúde (CID). Neste documento, a condição dos viciados em games entrará como “desordem relacionada a comportamentos viciantes”, cujo diagnóstico segue protocolos muito parecidos com aqueles utilizados para determinar a “dependência por jogos de azar”. Ter o distúrbio incluído na CID é um reconhecimento dos estudos realizados na busca por sintomas para a determinação dos critérios de diagnóstico e, o mais importante, propostas de tratamento — opina a psicóloga Luciana Nunes, fundadora do Instituto Psicoinfo. — E a inclusão no CID é pré-requisito para o atendimento em hospitais públicos e para a cobertura dos planos de saúde.
Não se trata de demonizar o uso de tecnologias. Até mesmo porque esta seria uma postura no mínimo ingênua. Os recursos tecnológicos são uma conquista da humanidade para democratizar o acesso a informação, facilitar pequenas tarefas do dia-a-dia como usar um transporte ou pedir uma refeição. É inegável a contribuição dos computadores, tablets e smartphones na comunicação com qualquer parte do mundo, em qualquer tempo ou lugar. Muitas escolas têm feito dos recursos digitais, aliados dos professores na tarefa de ensinar; há inúmeras plataformas e aplicativos que agregam valor à busca do conhecimento, partilha de informação e resolução de problemas.
Entretanto, não podemos perder de vista que as ferramentas digitais são exatamente o que são: ferramentas. Não podem substituir a interação e conexão sociais necessárias ao desenvolvimento de habilidades humanas; não excluem o papel fundamental dos educadores de promover vínculos com a aprendizagem; não eximem escolas e universidades de sua missão de desafiar, promover debates, construir pensamentos investigativos e reflexivos, e formar indivíduos conscientes de seu papel no mundo.
Máquinas são apenas máquinas. Assim como a lousa não se escreve sozinha, não há plataforma digital, por mais completa que seja, que possa substituir um mestre cônscio de sua intransferível missão. Da mesma forma, não há game, youtuber ou maratona de séries que possam tomar o lugar das experiências do mundo real.
O perigo mora no exagero, na falta de capacidade de traçar limites, na inexperiência diante do risco de ser tragado para um universo virtual e abdicar das vivências necessárias à inserção no mundo de verdade.
Há jovens e crianças que têm mais dificuldade para lidar com os desafios de uma vida em grupos, sejam eles a família ou os amigos. Esses indivíduos são aqueles mais suscetíveis a cair nas armadilhas de sentir-se poderoso e reconhecido por meio de suas habilidades nos jogos. Quando se joga online, por exemplo, cria-se uma falsa impressão de ter amigos, muitos amigos. No entanto, não há relação estabelecida por meio desse contato; há apenas um lugar de adversário momentâneo e parceiro virtual. O jovem pode sentir-se menos solitário num “relacionamento” estabelecido nessas bases: não há conflito, não há julgamento à aparência física, não há necessidade de sair da casca.
A longo prazo, pode-se perder completamente o interesse pelas tão intrincadas relações com o outro, que exigem movimentos emocionais, adaptações, aprender a lidar com o diferente, com o que desafia e com a frustração. Perde-se o desejo de interagir. Cria-se o desejo de se isolar.

Alguns sinais de que o uso dos games pode ser considerado um problema:

• não ter controle de frequência, intensidade e duração com que joga videogame;
• priorizar jogar videogame a outras atividades;
• continuar ou aumentar ainda mais a frequência com que joga videogame, mesmo após ter tido consequências negativas desse hábito;

É claro que não se trata de proibir, erradicar, jogar fora ou nunca permitir a aproximação com o videogame. Trata-se de assumir que esta é mais uma faceta da educação dos pequenos e médios que são da responsabilidade dos pais. Há que se acompanhar, observar e ajudar a encontrar o equilíbrio. E, em caso de se perceber que há prejuízos, tomar atitudes imediatas. É no acompanhamento de cada situação de vida que se educa uma criança, ou um jovem. É por meio do diálogo e da autoridade amorosa que se garante uma relação de afeto e um ambiente seguro para os filhos. Dá trabalho? Lógico que dá! Mas é um trabalho absolutamente digno e intransferível, cuja recompensa é não sofrer dores irreparáveis mais tarde.

3 de maio de 2018

O que leva um adolescente a querer tirar sua própria vida? – Ana Macarini


Recentemente as famílias de um tradicional colégio da cidade de São Paulo foram diretamente atingidas por dois casos de suicídio, num período curto de tempo. Nos dois casos, aqueles que recorreram ao recurso extremo de pôr fim à própria vida, eram adolescentes, estudantes do Ensino Médio.
O luto vivido pelos pais, colegas, familiares, professores e demais funcionários da escola vem inevitavelmente acompanhado de muitas perguntas: Por quê? O que deixamos de perceber? De quem é a culpa? Havia como evitar?
Perder um filho é devastador. Ainda que os pais sejam muito idosos e o filho já seja adulto, ver um filho partir é uma experiência horrivelmente dolorosa para os pais; pois subverte a ordem natural da vida. Então, imagine a intensidade da dor daqueles que perdem seus filhos no ápice da vida; imagine o que é ter de lidar com a ausência de um filho jovem que escolheu não viver mais.
Os amigos, e mesmo os outros jovens que conheciam apenas de vista aquele que cometeu suicídio, veem-se numa situação de desequilíbrio emocional coletivo. Junto da dor, vem a curiosidade inevitável, posto que jovens são curiosos por natureza. E, não, não se trata de um comportamento desrespeitoso ou insensível; é a essência daqueles que ainda estão descobrindo a vida, buscando entender as fissuras dolorosas a que são submetidos.
Muitas vezes, aquele que partiu precocemente recebe do grupo muito mais atenção agora que já não está mais entre eles; passa a ser objeto de interesse; passa a fazer parte do imaginário; passa a ser o assunto mais frequente por muitos dias. No entanto, infelizmente, passado algum tempo, o fato será esquecido e, muitas vezes substituído por “questões mais urgentes” e que requerem a atenção daqueles que ficaram, como o vestibular, por exemplo.
O Ministério da Saúde divulgou recentemente dados alarmantes: o índice de suicídio cresceu no Brasil entre 2011 e 2015, sendo a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 e 29 anos; o meio mais utilizado é o enforcamento; 35,8% dos casos estava ligado à depressão, sendo o maior percentual; em segundo lugar, aparecem transtornos decorrentes do uso de substâncias lícitas ou ilícitas. Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, a presença de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) nas cidades reduz o risco de suicídio em 14%; no entanto, estas instituições só estão presentes em 2463 dos quase 6 mil municípios do país.
A despeito das impactantes estatísticas, o mundo evoluiu em termos de ações para a prevenção ao suicídio. Até a década de 1980, acreditava-se que a divulgação dos casos poderia incentivar a ocorrência de outros, por imitação; sendo assim, era habitual evitar falar sobre o assunto. Entretanto, estudos e aprofundamentos sobre o suicídio, avançaram; hoje a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que PRECISAMOS FALAR SOBRE O ASSUNTO. Sabemos agora que a prevenção passa por um longo processo de pesquisas, desenvolvimento de programas de apoio e aconselhamento e muito diálogo entre todas a partes envolvidas: profissionais de saúde, educadores, familiares e os próprios jovens e crianças, inclusive.
Uma das questões apontada pelos pesquisadores alerta para o atual modelo de educação; estamos criando nossas crianças em bolhas blindadas de proteção; evitamos a todo custo que elas sofram qualquer tipo de aborrecimento ou privação. A consequência é que estas crianças chegam à adolescência precocemente em função do bombardeamento de estímulos externos e de uma cada vez mais prematura explosão hormonal, ao mesmo tempo em que não contam com recursos suficientes para administrar essas mudanças e sem praticamente nenhuma capacidade de lidar com as frustrações.
Junte-se a isso uma quantidade considerável de famílias desestruturadas, mais pais perdidos e com dificuldades para encontrar um equilíbrio entre liberdade e autoridade amorosa, mais uma estrutura educacional despreparada para lidar com esses jovens e crianças. Escolas muitas vezes omissas em relação às inúmeras demandas de seus alunos e não raras vezes sendo protagonistas na defesa de espaços educacionais que priorizam uma avalanche de conteúdos pedagógicos, muita pressão por resultados e nenhuma reflexão.
Não há fórmulas mágicas, não há sequer razões coincidentes entre todos os casos de suicídio. No entanto, a maioria deles tem relação com distúrbios mentais, como depressão e transtornos de ansiedade que podem ser causados por inúmeros elementos estressores, por desequilíbrio químico do cérebro e, também pelo consumo de álcool e drogas. Há ainda os fatores diretamente ligados ao cenário de convívio social dos jovens e crianças que vão desde a falta de atenção familiar à casos de Bullying.
Existe, inclusive, a hipótese de que o uso de alguns antidepressivos possa contribuir para que se instale o desejo suicida. Ainda não há pesquisas suficientes para que se estabeleça um consenso a respeito, mas consta na bula da maioria destes medicamentos que “casos isolados de ideação e comportamento suicidas foram relatados durante o tratamento”. Muitas vezes, o antidepressivo promove num espaço mais curto de tempo a melhora das queixas físicas; para só depois de algumas semanas começar a promover a melhora psíquica, e este descompasso pode fazer com que o paciente, sentindo maior vigor físico, saia da letargia depressiva ainda sem ter os transtornos psicológicos estabilizados.
Aqueles que planejam tirar a própria vida ou que estejam apenas cortejando a ideia não trazem isso escrito na testa, inúmeras vezes, inclusive, suas intenções passam desapercebidas. Porém, há sinais que podem indicar a presença de ideação suicida:

• Oscilações de humor
• Isolamento
• Alterações no sono
• Alterações no apetite
• Irritação ou explosões emocionais
• Queda no rendimento cognitivo
• Desinteresse por atividades que antes eram queridas
• Abuso de bebidas alcoólicas
• Prostração ou agitação excessivas
• Falas disfarçadas de ameaça (ao contrário do que diz o senso comum, quem quer se matar, muitas vezes avisa, sim!)

O assunto é extremamente sério, difícil, complexo e doloroso. E a solução passa por um movimento de ação conjunta de todos os setores da nossa sociedade. A morte prematura desses jovens é problema de todos e de cada um de nós. Que a exposição de suas vidas na mídia não seja apenas “mais um assunto de comoção geral”. Que as suas vidas tão precocemente interrompidas desperte em nossos ânimos uma vontade perene de evitar a todo custo que essa triste história se repita.

2 de abril de 2018

Alcoolismo Juvenil: Por que nossos jovens precisam se embriagar? – Ana Macarini


"Desculpe falar assim “na lata”, mas álcool é droga, sinto muito. Pior que isso, o álcool é uma droga lícita, aceita, louvada e, muitas vezes, seu uso é incentivado pelos próprios familiares. Para ficar ainda pior, custa extremamente barato. É possível comprar uma garrafa de cachaça em qualquer esquina do Brasil por menos de dez reais.
Beber álcool é um hábito visto com olhos muito pouco críticos, como se fosse algo inofensivo. Aliás, a grande maioria das pessoas acredita que diversão e vida social não são coisas possíveis sem um copinho de birita na mão. Bem… antes fosse apenas um copinho.
As bebidas alcoólicas constituem as drogas legalizadas mais consumidas em nosso país. Brasileiro parece ter absoluta certeza de que festa sem algumas doses, não é festa. Bebe-se antes, durante e depois das refeições, bebe-se para comemorar, bebe-se para relaxar, bebe-se para esquecer. Acontece que essa insanidade coletiva não fica apenas na conta dos adultos; nossos jovens estão adquirindo o hábito de beber cada vez mais precocemente.
Mas afinal, o que pode levar um jovem, em plena melhor fase da vida, com um corpo cheio de energia vital e com incontáveis possibilidades de escolha para passar o tempo e aproveitar a vida, a achar que é uma boa ideia entorpecer o cérebro e matar alguns muitos neurônios afogados em porres de vodka, cerveja e tequila?!
O jovem bebe porque tem acesso, porque tem exemplo e porque desenvolve a crença errônea de que ficar embriagado vai resolver seus problemas de autoestima, timidez e falta de desenvoltura social. Quando está sozinho e pode refletir, o jovem até sabe que o álcool é prejudicial e que aquele efeito entorpecente não há de ser benéfico. Mas, quando está cercado pela turma, a teoria morre afogada no primeiro “shot”.
Por lei, menores de idade não podem comprar bebida alcoólica no Brasil. No entanto, a coisa mais fácil do mundo é sair de um supermercado de ambiente feliz e familiar com garrafas e latinhas, cuja quantidade seria suficiente para deixar de pilequinho a vizinhança inteira. E, se a lei não é cumprida, quem vai se responsabilizar pelo consumo de álcool dos menores? A família, que anda cada vez mais omissa? A escola, que finge que não vê o problema? Os órgãos de saúde, que andam mais trôpegos que um bebum em fim de balada?
Basta dar uma chegadinha em qualquer festinha, barzinho ou balada frequentada por jovens com idade entre 13 e 17 anos para observar a quantidade de meninos e meninas embriagados, andando pelo meio dos carros, completamente desorientados, agarrados a litros de bebida, passados de mão em mão e tragados com desenvoltura, diretamente no gargalo.
Dados inéditos de uma pesquisa sobre o uso de drogas entre os alunos de escolas particulares da cidade de São Paulo revelam que um em cada três estudantes do ensino médio se embriagou pelo menos uma vez no mês anterior ao levantamento.
Uma pesquisa realizada pelo Cebrid (Centro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) da Unifesp, ouviu mais de cinco mil alunos do ensino fundamental e médio de trinta e sete escolas particulares da cidade de São Paulo; os dados são alarmantes. Entre os estudantes do ensino fundamental (8º e 9º anos), o total dos que se embriagaram ao menos uma vez no último mês é de 24%. Os jovens ouvidos têm entre 13 e 15 anos.
O pileque, ao contrário do que muita gente quer acreditar, não é uma brincadeira inocente. Sua prática, em verdade, é uma consequência imediata do conceito absurdo que beber é uma prática social. Crianças brasileiras crescem assistindo seus familiares entornando copos de bebida nos mais variados eventos.
É por isso que nossos meninos e meninas chegam à adolescência acreditando que ter um copo de álcool na mão é símbolo de status e de maturidade. Acontece que essa crença distorcida pode vir acompanhada de tragédias anunciadas: jovens morrem atropelados por estarem embriagados, jovens atropelam pessoas inocentes por estarem embriagados, crimes de estupro e abusos crescem assustadoramente em ambientes regados a bebida alcoólica.
O uso costumeiro de álcool desencadeia um processo inflamatório no cérebro, alterando as reações químicas e, consequentemente, as ações provenientes de sinapses neuronais. Jovens habituados a beber têm prejuízos de memória, concentração, atenção e podem desenvolver distúrbios de aprendizagem e transtornos de humor.
E é por isso que nós, os adultos, precisamos acordar e entender que é nossa responsabilidade prevenir e proteger nossas crianças dos perigos iminentes que o uso dessa droga lícita pode oferecer. E acontece que campanha nenhuma vai funcionar enquanto as mídias sociais continuarem inundadas de publicidade que associa o consumo de bebida à prazer, poder e liberdade. Nada será suficiente para alertar essa garotada, enquanto ficar alcoolizado for uma prática recorrente em festas familiares."

Fonte: https://www.contioutra.com/alcoolismo-juvenil-por-que-nossos-jovens-precisam-se-embriagar/

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